A entrevista de Manuela Moura Guedes na SIC Notícias é um potente abanão em quem agora pretende que José Sócrates deve apenas ser julgado pelos casos de corrupção, ou porque mentiu sobre os seus rendimentos. A corrupção é um assunto lateral. O modo de governação de Sócrates – de intimidação e esmagamento de todas as forças que se opuseram – é que deve merecer reflexão. Porque, de facto, quem pactua com os abusos de poder de Sócrates não é moralmente suscetível de lhe ser confiada a governação de um país.

Pela minha parte passei os anos Sócrates na blogosfera a clamar contra todos os abusos. Tivemos até um assomo (muito mal concretizado) de uma manifestação em favor da liberdade de expressão. Mas éramos um nicho. E é preocupante, ainda hoje, que o país tenha assistido tão descansado ao que se passou nos anos socráticos. Os eleitores reelegeram-no em 2009 – ainda que já sem a maioria absoluta. Os políticos, fora teatrinhos inconsequentes, ficaram quedos. O sistema judicial foi a desvergonha que se sabe.

E os jornalistas? Não podemos passar por cima dos jornalistas. Houve os que resistiram ainda e sempre ao invasor – MMG foi uma entre vários – mas a maioria, há que lembrar, vivia embevecida pelo animal feroz. O parvenue Sócrates conquistava aqueles jornalistas, já de si inclinados para a esquerda, que adoravam a adulação do primeiro-ministro, que ia fumar cigarros com eles no avião das viagens oficiais e tudo. A modernidade de pechisbeque que Sócrates exibia era tomada como verdadeira sofisticação. O atleta que fazia jogging pelo mundo era fotografado e exibido. Elogiavam e vangloriavam o visionário, o homem destemido, o paladino das causas fraturantes. Os ataques aos colegas jornalistas eram relegados para mera gestão comunicacional, um certo estilo agressivo que, no meio de tudo, se perdoava – ou até se defendia.

Lamento, mas sem uma comunicação social maioritariamente conivente os anos socráticos não teriam sido possíveis. Pelo menos, não teriam sido tão fáceis. Isto deve preocupar-nos. Porque a complacência se continua a estender ao atual governo. E se António Costa não tem falatório à volta de corrupção própria, não é menos implacável na hora de manter o poder para si e para o PS.

Vejam a entrevista de Manuela Moura Guedes. Há muito para refletir.

 

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